quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Pesquisa diz que 80% das estradas federais de Minas estão em péssimo estado

Na volta para casa, depois do feriado prolongado, a grande preocupação dos motoristas que circulam pelas rodovias federais em Minas é a péssima condição dessas estradas, o que representa um elevado risco de danos nos veículos e, o que é pior, de acidentes. E os condutores têm toda razão. As BRs que cortam o estado vivem uma situação caótica, com a superfície totalmente deteriorada, conforme comprova estudo do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit): quatro a cada cinco quilômetros da malha sob jurisdição do governo federal em Minas, cerca de 80%, têm superfície em condições ruim ou regular, baseado em índice internacional que avalia irregularidades na superfície das estradas. Trabalho recém-concluído pelo Sistema de Gerência de Pavimentos, braço do Dnit, mostra que 7.745 quilômetros das BRs que cortam o estado não apresentam boas condições de tráfego, pondo em risco motoristas e aumentando os gastos com a manutenção dos veículos.

Buracos na BR-267, entre as cidades de Machado e Pocos de Caldas, em Minas Gerais - (TCU/Divulgacao)

Buracos na BR-267, entre as cidades de Machado e Pocos de Caldas, em Minas Gerais

Para chegar à conclusão, os técnicos fizeram dois levantamentos de campo baseados em parâmetros do Banco Mundial. O primeiro, chamado de Levantamento Visual Contínuo, avaliou a superfície dos pavimentos identificados como flexíveis e semirrígidos, a cada 100 metros, por meio da observação dos defeitos existentes no pavimento. Agentes analisaram desde o tipo e a largura do pavimento até desgaste, afundamento de trilha de roda, remendos, ondulações e outros danos aparentes.
Já o levantamento do Índice de Irregularidades Internacional é uma avaliação da superfície feita com o uso de aparelhos a laser, que fazem leitura dos defeitos do pavimento. Foram aferidos os desvios da rodovia em relação a um plano referencial. Segundo o estudo, tais interferências “afetam a dinâmica dos veículos, a qualidade de rolamento e as cargas dinâmicas sobre as vias”. E a intenção é que, segundo o coordenador geral da Diretoria de Planejamento e Pesquisa do Dnit, Jony Marcos do Valle Lopes, a partir de tais pesquisas seja dada “prioridade aos trechos que mais necessitam de intervenções”. A projeção é que, até 2014, só 15% da malha seja caracterizada como regular e ruim. O restante deve ficar no conceito ótimo.
Exemplo do descaso é o que ocorre em quase toda a extensão da BR-354, que corta o estado desde o Alto Paranaíba até a divisa com o Rio de Janeiro, passando pelo Centro-Oeste e Sul de Minas. Trafegar na estrada é sinônimo de prejuízo. É preciso a habilidade de um piloto de automobilismo para desviar de cada buraco, efeito do desgaste causado pelos caminhões de calcário. “A partir de 2011, devem ser assinados contratos, com duração de cinco anos, para manutenção de 32 mil quilômetros da malha federal, tendo previsão de investimento de R$ 10 bilhões”, explica Lopes. Em Minas, estão incluídos 6 mil quilômetros. Proporcionalmente, o valor é inferior ao que foi investido nos últimos três anos. Ao todo, foram gastos R$ 6 bilhões na recuperação de pavimentos.

Para carroças
Não bastassem os defeitos, em mais de 1 mil quilômetros das BRs que cortam Minas a condição do pavimento é ainda mais problemática. Sem asfalto, as estradas mais se assemelham a vias medievais, apropriadas para carroças. Como são automóveis que transitam nesses trechos, seus motoristas chegam a gastar horas e horas tentando sair de lamaçais, evitando atoleiros e os pedregulhos que se desprendem do chão. É preciso paciência. E alcançar 40km/h no velocímetro é um desafio.
Segundo o consultor em transporte e trânsito Osias Baptista Neto, a deterioração do pavimento resulta numa série de problemas para o usuário da rodovia. A extensa lista inclui a menor aderência do veículo ao piso; o menor atrito de frenagem e consequente aumento do risco nas curvas; maior trepidação, implicando desgaste maior do automóvel e na dificuldade de dirigibilidade. O especialista afirma que na construção da estrada o piso é projetado para suportar o desgaste por determinado período e peso. Mas um aumento médio de 20% no total transportado pode resultar em redução da metade da vida útil do pavimento.
E a falta de fiscalização, uma vez que as balanças para caminhões estão desligadas, é um atrativo para o desrespeito à legislação. Em busca de maior lucratividade, transportadores carregam veículos acima do permitido sem sequer pensar nos estragos que irão causar nas vias – fora o risco de acidente.
A ‘bola de neve’ se encerra com a necessidade de se investir na recuperação das estradas. A mutilação do asfalto obriga os órgãos a liberar mais verbas para programas de manutenção, enquanto, se houvesse a devida fiscalização, o nível da superfície seria mantido em condições adequadas de trafegabilidade por maior tempo. “Manutenção não dá voto. Então, projeta-se a necessidade de manutenção para o governo seguinte e, se for preciso antecipação, argumenta-se que não se tem verba no orçamento para o trabalho. A solução é só um paliativo: as operações tapa-buracos”, afirma Osias.
Um exemplo visível no dia a dia das rodovias são os caminhões que transportam areia, segundo o consultor. Os caminhoneiros e as empresas usam artimanhas para aumentar a capacidade do veículo, como a colocação de pranchas de madeiras na carroceria e, no caso de cargas de areia, uma solução é levá-la molhada. “As balanças são equipamentos essenciais e seu desligamento é tão sério quanto o dos radares”, compara Osias Baptista Neto.

FONTE: CORREIO BRAZILIENSE

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