quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

O outro lado…Vale a Leitura.

De volta para casa

O caminhão mal despontava na esquina da rua Orlando Limberger, em Sobradinho, quando a família decidiu ir à frente da casa o esperar. Reconheceram, com olhos cheios de lágrimas, apenas o brilho prateado que o tornava imponente a quilômetros: “É o Mário”. O alvoroço inicial deu lugar à emoção mais pura.

Não aguardavam um herói, mas o homem que há 35 anos retira o sustento da estrada, desafiando perigos e infortúnios. Em sua simplicidade, já era valente por si só, por isso merecia esse título. Depois da agonia de ter ficado mais de 12 horas em poder de assaltantes no Estado de São Paulo, o sobradinhense Mário Herath, 62 anos, havia voltado a sorrir. Estava em casa. Recebeu abraços, beijos e apertos de mão. Era um guri de tanta alegria.

Engana-se, porém, quem acha que ele baixou a cabeça. Camioneiro quer chão; Quer vencer horizontes e acreditar que ainda tem muita carga a transportar.
Sequestrado na Marginal Tietê na quarta-feira da semana passada, ele foi rendido por assaltantes armados. Foi levado para um cativeiro onde permaneceu por mais de doze horas. Solto no outro dia numa estrada de chão no interior paulista, Herath teve que caminhar cerca de cinco quilômetros. Sem dinheiro e documentos, contou com a ajuda do proprietário de um posto de combustíveis, tendo conseguido acionar a transportadora, que o resgatou de lá.

No final da tarde desta terça-feira, em casa, relatou momentos de terror vividos enquanto estava nas mãos dos assaltantes. A família e os amigos param para o escutar. Seguro, já podia até brincar com a situação. “Não tenho medo. Quando isso acontece é preciso não demonstrar isso”.

Tensão
Mário conta que estava trafegando pela Marginal Tietê, em São Paulo, por volta das 21h, quando foi interceptado por dois veículos que o obrigaram a parar em um viaduto.

Dois assaltantes o retiraram do caminhão e o colocaram no banco de trás de um dos automóveis, que era dirigido por um comparsa. Deitado e coberto, não sabia para onde estavam o levando. Os bandidos andaram por mais de uma hora. Estavam, provavelmente, na Favela Pinheiros.

Armados, os assaltantes levaram Mário até um cativeiro sujo, sem luz e água, de chão batido. A todo momento falavam no celular com “informantes” para saber se a polícia não havia os seguido. Sentado em uma caixa de frente para uma das paredes do barraco, o camioneiro era questionado de hora em hora: “Eles perguntavam se eu estava com fome e com sede. Também queriam saber se eu tomava algum remédio”, revela. Nervoso, mas tentando demonstrar calma, lembrava da família. “Que agonia”. A todo momento chegava um dos assaltantes armados e lhe colocava o revólver nas costas. “Sempre me ameaçando. Apesar disso, posso afirmar que eles não queriam me matar. Eram profissionais do roubo”, afirma Mário.

Por volta das 9h de quinta-feira, dois assaltantes levaram Mário disfarçado no carro até uma passarela. Ordenaram que ele fosse em frente, sem olhar para trás. “Pensei que fossem atirar em mim. Ainda bem que segui naquela estrada até encontrar algumas pessoas”, salienta. Estava em Itaim Paulista.

Andou até chegar a um posto de gasolina, onde conseguiu lembrar o número da transportadora. Algumas horas depois foi, juntamente com o responsável da empresa, buscar o caminhão que havia sido encontrado pela polícia em Suzano/SP. “Acredito que eles tenham se enganado. A carga que eu levava não os interessava”, frisa.

Mário foi assaltado duas vezes. Há 15 anos, em Itapecirica, presenciou a troca de tiros entre bandidos e a força policial. Desta vez, reitera, o cenário não estava tão assustador. Destemido, mostra a coragem de quem é guiado por Deus, e pelos Anjos da Guarda, nestas estradas cheias de perigo. “Vou continuar dirigindo. Não podemos nos entregar para o medo. É preciso ter calma e estar disposto a viver intensamente, porém sempre escoltado pelo  Senhor de Tudo”. E ele nem vai esperar muito para dar sequência ao trabalho. Já na semana que vem, provavelmente, embarcará em seu caminhão e partirá para uma nova viagem. Uma pessoa que desafia o desconhecido em nome do progresso do Brasil.

FONTE: GAZ

Postar um comentário