sexta-feira, 24 de junho de 2011

(SP) Sem pistas

Por causa do grande número de empresas de eletrônicos e de centros de distribuição, cargas somem nas rodovias da região de Jundiaí.

Duas ações ousadas na madrugada de ontem engrossaram a triste estatística que transformou a região de Jundiaí em um dos principais alvos de ladrões de cargas no Estado – somente nos três primeiros meses do ano foram 22 ações, de acordo com a Secretaria Estadual de Segurança Pública .

Nos roubos desta quarta-feira (22), duas quadrilhas roubaram dois caminhões carregados com móveis e eletroeletrônicos e outro com componentes para computador.
Em uma das ocorrências, nove homens foram presos e dois fugiram. Já no outro roubo, os sete ladrões conseguiram escapar com uma carga avaliada em R$ 800 mil.

De acordo com a Polícia Civil, os roubos são concentrados em uma área de cem a 150 quilômetros da capital e Jundiaí entra no foco dos bandidos por dois motivos: a concentração do fluxo de carga por causa do grande número de rodovias e também pela possibilidade variada de rota de fuga.


Só em Jundiaí existem 859 empresas na área de logística, que armazenam de tudo de onde produtos valiosos, como eletrônicos, partem para serem distribuídos em todo o país.

"Isso sem contar as grandes empresas que possuem um setor próprio de logística”, diz  presidente da Abepl (Associação Brasileira de Empresas e Profissionais de Logística), Anderson Moreira. “ Se somarmos a isso ao grande número de rodovias e a qualidade das estradas que cercam Jundiaí, é possível entender o grande número de roubos de carga na cidade", afirmou.

Segundo ele, assim como as cargas, os bandidos entram e saem com pouca restrição das cidades da região. "Jundiaí fica muito perto de São Paulo e por isso o caminhão roubado aqui é facilmente levado até lá e a carga distribuída. O que falta é policiamento não só nas estradas, mas também para interceptar o receptor das cargas roubadas.”

Anderson aponta que por causa do grande número de roubos e no fim quem paga a conta é você. Ele cita um ciclo: o caminhão e a carga roubados geram prejuízo à empresa, que aumenta seus gastos e com isso o consumidor recebe o produto mais caro.

As ações / Os bandidos agem em quadrilhas, de pelo menos quatro pessoas fortemente armadas, e sempre nas proximidades de regiões mais populosas, porque isso facilita a distribuição da mercadoria, conforme o delegado coordenador do Procarga, Waldomiro Milanese.

Prejuízos /Em 2010, o prejuízo dos empresários paulistas e das seguradoras chegou a  R$ 280 milhões. No primeiro trimestre deste ano, no estado de São Paulo, foram registrados quase 1,8 mil roubos e o prejuízo já chega a R$ 68 milhões. Os números são do SETCESP (Sindicato das Empresas de Transportes de Carga de São Paulo e Região).

‘A gente obedece as ordens, é a nossa vida que está em jogo’
Apesar dos itens de segurança no caminhão, como rastreador por satélite, alarme, blindagem e seguro, os caminhoneiros temem as ações das quadrilhas. “Afinal é a nossa vida que fica em risco”, contou o caminhoneiro Francisco Bevilaqua, 57 anos. “Não adianta ter toda essa proteção se as quadrilhas nos abordam fortemente armadas. A gente obedece as instruções”, completou ele, que já foi assaltado duas vezes.

A última vez que ficou na mira dos bandidos foi há três anos, na rodovia Anhanguera. “Eu estava próximo a divisa com Vinhedo quando dois veículos me fecharam . Quatro bandidos estavam armados e fiquei em poder deles por mais de oito horas.”

Outro caminhoneiro que já enfrentou uma situação dessas é Sebastião Carvalho Filho, 42 anos. Há 23 anos nas rodovias do país, ele também foi assaltado duas vezes, e as duas na Anhanguera. “Uma foi aqui em Jundiaí em um posto, e a outra na altura de Paulínia.”

O caminhoneiro ficou refém da quadrilha por mais de 12 horas. “Me abordaram à tarde, quando estava no posto, e me liberaram na madrugada do dia seguinte. Um dos bandidos queria me matar, mas o outro impediu algo mais grave.”
“Meu caminhão estava com xampu e não interessava. Eles queriam o cavalo para transportar outra carga”, lembra. Para fugir dos roubos, os motoristas costumam andam em comboio. “E, se possível, nunca durante a noite”, completa Sebastião.

Itatiba
Nove homens foram presos na madrugada de ontem por policiais militares, na rodovia Engenheiro Constâncio Cintra, que liga Jundiaí a Itatiba. Eles são acusados de roubo de carga e formação de quadrilha.

De acordo com a polícia, os marginais usaram dois caminhões e dois veículos de passeio, um VW Fox e um Vectra, para roubar dois caminhões das Casas Bahia carregados com produtos eletrônicos e obrigaram seus ocupantes a seguirem até a Estrada Municipal Jorge Ferreira, no Bairro do Pinhal em Itatiba.

As vítimas foram trancadas no baú de um dos caminhões, a carga da empresa seria colocada em outro caminhão que já aguardava no local.
Moradores próximos do local suspeitaram e acionaram a polícia, que encontrou os bandidos saindo da estrada.

Dos nove presos, três pertencem a uma mesma família. O mecânico José Carlos Soares de Oliveira, 50 anos, seus dois filhos Ronaldo Soares de Oliveira, 26, e Gilberto Soares de Oliveira, 29, todos moradores de Carapicuíba e suspeitos de serem os líderes da organização criminosa. Foram presos ainda os irmãos Rafael Alves, 28, e Rodolfo Alves, 26,  além de Daniel Araújo David, 26, os três moradores de Osasco. Fabio Vicente Ferreira Pires, 29, Iverson Luiz de Andrade Rafael Alves, 28, de Carapicuíba, e Edilson Gonçalves Santos, 45, residente em Jundiaí, também foram presos.

A abordagem/ Após receber as denúncias, a PM foi para o local e abordou dois carros, um Vectra e um Fox. Nos veículos estavam quatro acusados. Um outro caminhão  com quatro homens foi abordado na base da Polícia Militar Rodoviária. Os policiais localizaram uma pistola calibre 9 milímetros com 16 cartucho – a arma semi-automática é de uso restrito das forças armadas.
Outras viaturas localizaram os dois caminhões das Casas Bahia, que seguiam para Minas Gerais. Próximo aos veículos, um outro caminhão foi avistado. Dois dos três bandidos que guardavam o local conseguiram fugir.
Os nove homens foram levados ao Centro de Detenção Provisória de Jundiaí. Todos eles possuem ao menos uma passagem pela polícia.

Na Bandeirantes /Um outro assalto foi registrado na rodovia dos Bandeirantes, também na madrugada de ontem. O caminhão, carregado com componentes de computadores, avaliados em R$ 800 mil, seguia do aeroporto de Viracopos, em Campinas, para a fábrica da empresa Positivo, em Curitiba.

O motorista D. S. G. foi abordado por dois carros, um Peugeot e um Corolla, ocupados por sete homens fortemente armados com fuzil e metralhadoras. Os bandidos renderam o veículo que fazia a escolta e dominaram os dois seguranças, roubando os dois revólveres, uma espingarda calibre 12 e dois coletes a prova de bala.
Os seguranças foram colocados em um dos carros. Já o motorista foi obrigado a deitar no chão, enquanto os bandidos tiravam a carga do caminhão e colocavam os componentes em um veículo.
Os ladrões fugiram com a carga e liberaram os seguranças e o motorista em seguida.

Tentativa de roubo terminou em tiros
No último dia 14, bandidos armados com fuzis em dois carros tentaram roubar um caminhão carregado com produtos eletrônicos no km 52 da rodovia Anhanguera. O motorista, J. M. O. N, 51 anos, percebeu a ação e, ao tentar fugir, acabou baleado na perna. Ele ainda bateu o caminhão contra um dos carros dos bandidos, prensando o veículo contra a mureta da rodovia.
Mesmo ferido, ele seguiu adiante, chegou a bater em um Honda Civic que passava pela rodovia e só parou de dirigir quando chegou na Delegacia Seccional de Jundiaí. A polícia foi até a rodovia e encontrou o veículo dos bandidos abandonado na pista. No interior do Corolla, produto de roubo em Campinas, foram encontradas três camisetas pretas com escritos “Polícia Civil” em amarelo. Ninguém foi preso.

As cargas mais visadas pelos ladrões são de alimentos, eletroeletrônicos e remédios.

FONTE: DIARIO DE S. PAULO

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