segunda-feira, 18 de junho de 2012

(RJ) Cargas roubadas no Rio abastecem lojas em SP, MG e ES

Índice deste tipo de crime aumentou 30% no ano; média é de dez roubos por dia.

Quadrilhas altamente especializadas, bem armadas, com ramificações interestaduais e em busca de lucros milionários. Some-se a isso, ex-traficantes que resolveram "mudar de área" após a implantação das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora). É nesse cenário que a polícia trabalha para reduzir um tipo de crime que cresceu 30% nos três primeiros meses do ano: o roubo de cargas. Hoje, a média é de 10 cargas roubadas por dia no Rio.

Grande parte das cargas roubadas no Rio são levadas para outros Estados, principalmente os vizinhos (Espírito Santo, Minas Gerais e São Paulo), segundo o delegado Fábio Cardoso, titular da DRFC (Delegacia de Roubos e Furtos de Cargas) (veja o mapa abaixo).

— As investigações nos indicam isso. Muitas cargas roubadas aqui são encomendadas por receptadores de fora do Rio. Isso é ainda mais comum entre as quadrilhas que roubam também os caminhões. Recentemente, recuperamos um caminhão que foi roubado no Rio, levado para o Espírito Santo, onde foi modificado, e voltou a circular por aqui.

O delegado explica que, além dos próprios caminhões, os equipamentos desses veículos são muito visados pelos ladrões, como baú, frigorífico e munck (espécie de guindaste). Há 15 dias, três caminhões foram recuperados por agentes da DRFC em Itaboraí, cada um avaliado em R$ 300 mil.

Entre os integrantes da quadrilha, há o responsável pela direção, o responsável pela rota de fuga, o homem armado que aborda as vítimas e o especialista em tecnologia antifurto, capaz de desativar rastreadores via satélite ou de “enganar” o sistema. Nessa teia, também há atravessadores e receptadores. Alguns desses assaltantes são ex-traficantes, que deixaram a antiga profissão com a expansão da pacificação nas favelas.

— Percebemos que alguns criminosos que ficavam em favelas agora ocupadas passaram a praticar outros tipos de crimes. Com isso, houve aumento, por exemplo, de roubo de carros e de cargas. Alguns dos presos pela DRFC já responderam por tráfico. Desde que assumi, em setembro, já foram mais de 180 prisões.

De acordo com o ISP (Instituto de Segurança Pública), entre janeiro e março, foram registrados 898 roubos de carga no Estado, índice 30% maior do que o verificado no mesmo período do ano passado. A capital concentrou 70% dos casos e o maior aumento aconteceu na Grande Niterói, que inclui das cidades de Niterói, São Gonçalo e Maricá, onde os roubos mais que dobraram, passando de 63 para 130 entre o primeiro trimestre de 2011 e 2012.

O delegado explica que as cargas roubadas são encomendadas por empresários com estabelecimentos regulares, com alvarás e sedes próprias. Eles misturam as mercadorias compradas legalmente com as roubadas para obter lucro maior e usam as notas fiscais para justificar a compra de todo o estoque. As cargas roubadas costumam ser compradas pela metade do valor.

As mercadorias preferidas são as de valor mais alto e que são vendidas rapidamente. Atualmente as cargas mais roubadas são de eletrodomésticos, cigarros e remédios. Em fevereiro, uma carga de medicamentos e cosméticos avaliada em R$ 1,6 milhão foi recuperada.

Participação de funcionários e policiais

No caso dos eletrodomésticos, é comum a participação de funcionários e ex-funcionários das empresas no crime. Receptadores costumam comprar os produtos, revendidos em casa para moradores da região. Recentemente, policiais se passaram por compradores e prenderam em flagrante o funcionário de uma grande rede dentro de casa.

Nas quadrilhas maiores, a presença de policiais é frequente, de acordo com investigações. Eles têm como funções fornecer informações, conseguir compradores e até retirar o policiamento das áreas onde vão acontecer os crimes.

Segundo o delegado Fábio Cardoso, as áreas onde há maior incidência de roubo de cargas são o entorno do complexo de favelas de Costa Barros, na zona norte do Rio, as proximidades da favela Vila Kennedy, na zona oeste, em São Gonçalo (região metropolitana) e as cidades de Duque de Caxias e Nova Iguaçu, na baixada. Nas três primeiras localidades, o índice de roubos mais que dobrou em um ano.

— A explicação para isso é simples. Nessas áreas ficam sediadas as grandes transportadoras e depósitos de grandes empresas. A circulação de caminhões é muito grande. Eles saem para fazer as entregas e retornam. A maior parte dos roubos acontece de manhã, até as 14h, quando os veículos ainda estão carregados.

PM vai receber informações diárias sobre roubos

O delegado explica que um dos principais desafios é prender receptadores - que compram as cargas - e atravessadores - que fazem a ligação entre vendedores e compradores, porque eles não participam diretamente dos roubos. Para se chegar até eles, leva-se mais tempo de investigação.

A DRFC vai informar diariamente os batalhões sobre roubos de cargas, com detalhes sobre a ocorrência, como características dos criminosos, dos veículos usados e horário. A incidência é ainda maior em períodos que antecedem datas comemorativas, como o Natal.

remédios

Carga de remédios e cosméticos é recuperada em março pelo Bope em morro de Costa Barros (Foto: Jadson Marques/R7)

FONTE: R7 RIO DE JANEIRO

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